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Virada Cultural: viola para salvar a cidade
Ainda há esperança para a cidade. Foi isso que percebi logo na madrugada de sábado (26), quando tive de circular pelas ruas de São Paulo e vi dezenas de pessoas, montes de famílias andando sem competição.
Na manhã de domingo (26), enquanto caminhava do meu apartamento, na Rua da Mooca, até o Centro o cenário era idêntico.
Uma bandeira do Flamengo pendurada na janela de um prédio decadente da Rua Carlos Garcia me fez lembrar que também era dia de Flamengo x Botafogo, primeira partida da final do Campeonato Carioca.
Uma quadra depois, outra bandeira, agora do Palmeiras, que o vendedor ambulante negociava no semáforo, também dizia que seria o penúltimo passo na caminhada do verde rumo ao fim da fila, contra o time da Ponte Preta, no primeiro jogo da final do Paulistão.
Meu destino era a Rua Canteira, entrada do Mercado Municipal de São Paulo, famoso pelos generosos sanduíches de mortadela. Dessa vez, porém, não fui para comer, até porque estava quase sem um puto no bolso. Ao menos até tatear a bermuda jeans preta e encontrar uma nota de R$ 5, perdida, que usei para comprar água e voltar para casa de metrô.
Parei, então, em frente ao palco “Mercado Caipira”, parte da Virada Cultural que começou às 18h do sábado e se estendeu até às seis da tarde do domingo.
Diante de um fundo preto, João Mulato e João Carvalho me lembraram o senhor Sílvio Corrêa de Carvalho, meu pai, cantando junto, com os olhos marejados, as músicas dos grupos que se apresentam no Viola Minha Viola, programa de TV de Inezita Barroso. Histórias de praças, bares, boiadas, opressão, solidão, amores. Acima de tudo, verdadeiros tratados de honestidade.
Vestido com terno e calça preta e camisa branca, o bigodudo Mulato, à esquerda, conforme reza a tradição – o primeiro nome da dupla fica sempre à esquerda – empunhava uma viola caipira e usava chapéu de boiadeiro. À direita, Carvalho, o ‘moderno’, vestia calça jeans e camiseta pretas e empunhava um violão de seis cordas. Nada mais, apenas dois instrumentos e duas vozes.
A platéia, ao contrário do que esperava, não era formada apenas por velhinhos, minoria diante dos jovens e quarentões casais munidos de celulares e máquinas fotográficas digitais.
O público parecia perplexo, hipnotizado diante de modas como a conhecida, “Chico Mineiro”, nome da canção mais famosa de Tonico e Tinoco. Quer dizer, famosa ao menos para mim que fui criado ao som de emissoras de rádio AM e locutores com Zé Bétio, do bordão “joga água no gordo”, e de vinhetas com sons de galinhas, vacas e outros animais.
Entre as cerca de 200 pessoas, uma chamou minha atenção. De segunda a sexta, Nélson Filho, de 46 anos, é um engravatado advogado da Companhia Energética do Estado de São Paulo (Cesp). Aos finais de semana, um caipira que nesse domingo vestia chapéu preto de caubói combinando com os cintos e as botas e camisa branca de mangas cumpridas da mesma cor da calça. Visual corajoso para o sol intenso e o céu azul paulistano daquela tarde.
Natural de Paraguaçu, cidade ao sul do estado de Minas Gerais, contou que já teve momentos de discoteca e funk (o de James Brown, não o carioca), mas “o contato com a música sertaneja remeteu-me à tradição, à raiz”, falou.
“Houve um momento, há sete anos, que fui buscar mais verdade. São Paulo estava meio cruel. Durante cinco anos morei num sítio em Embu Guaçú e conheci pessoas humildes, que montavam muito bem, tem bastante coragem e me trataram muito bem, mesmo antes de saber da minha profissão”, disse.
“Eram amansadores de cavalo, donos de loja muito humildes”, complementou, enquanto eu reparava em dois anéis de ouro distribuídos nos dedos anular e mindinho.
Nascido e criado no bairro do Limão, zona oeste de São Paulo, onde mora até hoje, conta que a influência musical veio do pai, também mineiro, que dançava catira e era Bastião na Folia de Reis.
Casado, ele tem cinco filhos - “como bom caipira e mineiro” – emenda rápido quando me surpreendo com a quantidade de rebentos. A preocupação, agora, é passar a ingenuidade, a beleza e a simplicidade para os herdeiros. “Eles não tem costume de sentar, ler, ir atrás da cultura. Nem é preciso ir tão longe, ele está por perto”, aponta em lamento tipicamente sertanejo.
Enquanto terminávamos de conversar, João Mulato e João Carvalho também encerravam o show, sob uma forte salva de palmas, que repetiu-se também com Jacó e Jacozito, Cacique e Pajé e Pena Branca, outros caipiras que acompanhei. Mulato agradeceu. “Parabéns à Virada Cultural por nos dar oportunidade de cantar para a gente sofrida e trabalhadora de São Paulo que merece esse lazer”.
Antes de deixar o lugar, resolvi tentar passar pela tenda que funcionava como camarim e abrigava Tinoco, responsável por apresentar algumas duplas. Emocionado, pedi um autógrafo em nome do meu pai e me empolguei ao contar a historia do meu velho, dos tempos em que ele trabalhava na roça, de como é fã de música caipira de raiz. Percebi que Tinoco exibia um sorriso meio amarelado, parecia não entender o que eu dizia. Foi então que Nadir, escudeira e esposa do ‘homem’ há 50 anos, me alertou-me de que um dos preferidos de meu pai não ouvia bem do lado esquerdo. Sem problema, mudei de ouvido e repeti tudo, do lado direito do sofá preto onde ele estava sentado.
A tarde do último domingo deixou-me uma certeza: ainda há esperança para a cidade dos caipiras, tanto aqueles em cima do palco quanto para os milhares que acordariam cedo na manhã do dia seguinte.
Parti com o coração feliz.
O Julgamento Com uma das agências do Itaú atrás de suas botas e carabina, um posto de gasolina da Via Brasil à direita, uma loja do Mc Donalds à frente e o edifício Bandeirante Borba Gato, de 17 andares, à esquerda, ele observava, imóvel feito estátua, uma manifestação diferente no último dia 19 de abril. Quem sabe em outros anos, no “Dia do Índio”, tenha lembrado dos feitos que alguns consideram heróicos. Certamente, não aqueles que o cercaram na manhã do último sábado, em plena Praça Augusto Tortorello de Araújo, em Santo Amaro, na Zona Sul de São Paulo. De pés descalços sobre a grama, aos 16 anos, Marcos Oliveira, freqüentador do sarau da Cooperifa, deixou o Largo Treze, também zona sul da capital paulista, para engatilhar poesia. Os versos deixaram claro ao monumento de Borba Gato, diante do qual o garoto se posicionou, que a imagem do ‘desbravador’, ao menos entre a meia centena de representantes de movimentos culturais daquele lado da cidade, não é das melhores: “Essa terra tem mil deuses / um deles que me conduz / essa terra tem canções e cantigas / mas o ouro dos brasões / veio abrir nossa ferida / essa terra é muito antiga / essa terra é muito antiga / repousa os pés na estrada / a cada passada / o nosso descanso / embalado pelo canto / em qualquer canto / desbravando os brasis / se as veias estão abertas / seremos a cicatriz.” Antes de Oliveira, Binho, idealizador de um sarau que acontece no Bairro do Campo Limpo, abriu a artilharia por volta do meio-dia, após cumprimentar a todos com um bom dia em guarani, que começou a estudar com um catalão na região da Avenida Cerro Corá. Assim declamou: “Gasolinar mendigos, indígenas / é o barato da playboyzada / fuder com povos e países / numa canetada só / é o caro dos pais da playboyzada / a herança é um roubo (parafuseando).” A ativista sócio-cultural Graça Cremon destacou: “Há algum tempo existe grande descontentamento em termos um herói como Borba Gato, com essa arma na mão, com essa proporção, na entrada de Santo Amaro. Em São Paulo, todas as rodovias, o Palácio do governo tem nome de referências da cultura opressora. O Brasil também é milenar, não temos apenas 500 anos. Queremos destacar também a cultura brasilista”, ressaltou ela, integrante de um movimento, segundo disse, sem coordenador, organizado, principalmente, via e-mails. As acusações Pesavam contra o réu, acusações de trabalho escravo de negros e índios, estupro de mulheres negras e índias, assassinato para obtenção de riquezas e poder e massacre de culturas nativas, tudo isso expresso no panfleto que chegava aos motoristas de ônibus e de automóveis parados em um semáforo próximo à praça. Itamar Augusto, membro do Instituto das Tradições Indígenas (IDETI), organização paulista que surgiu em 1999, filmava tudo. “Não somos a favor de derrubar o monumento, mas queremos que saibam o que representa. Quais são nossos heróis? Você nunca vê a estátua de um índio num local privilegiado”, comentou. Resolvi, então, observar Borba, apenas para tentar saber o que pensava sobre tudo isso, no alto do mosaico de pedras que o compõe. Notei apenas um ferimento em seu joelho esquerdo, porém, pelo que percebi, fruto do tempo, nada que tivesse sido causado pelos homens e mulheres de rostos pintados, que dançavam desengonçadamente ao som de Ceu, Mestre Ambrósio e outros nomes da MPB ‘moderna’ que habitualmente funciona como trilha sonora nos carros de som dos movimentos sociais. Aos poucos, a imagem do bandeirante ganhava adereços como cartazes a seus pés. Um deles, marrom, pintado com caneta azul informava o que acontecia no local. Outro afirmava: “Eu converto ou mato o outro”. Como se fosse um desses homens-sanduíche do centro da cidade que vestem placas indicando, “vendo ouro”, uma garotinha de uns 10 anos trazia no peito, “somos todos índios”. Um dos mais interessantes, pendurado num arbusto no canteiro próximo à praça, lembrou outro desbravador paulista, o ex-prefeito, Paulo Maluf: “Estupra, mas não mata! Borba”. E por aí vai. Findo o sarau, era vez da antropofagia. Em performance teatral, faltando quinze minutos para uma hora da tarde, a Companhia Antropofagia interpretou o Manifesto Antropofágico, de Oswald de Andrade. “Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval”, disse ele, há sessenta anos. Chegou, então, a hora do prato principal. Após distribuir três folhas que apontavam o papel da defesa e da acusação na encenação, Graça destacou para os dois lados: “vale o coro, todos são protagonistas”. O juiz abriu a sessão: “Estamos aqui porque produtores culturais, ativistas e cidadãos da cidade de São Paulo de Piratininga querem questionar a história oficial e, a partir dessa ação reconstruir a história do povo nativo: o nosso povo!”.
Umas das fundadoras do PT e agora membro do PSTU, a atriz Dulce Muniz era uma velha índia que apontava os dados históricos sobre o etnocídio brasileiro. Ao lado dela, uma pequena intérprete representava os sobreviventes das aldeias brasileiras, tocando flauta, enquanto Dulce lembrava que o número de índios assassinados cresceu 61,4%, entre 2006 e 2007, segundo dados do Conselho Indigenista Missionário.
Será que Borba pensou, “e ainda querem me julgar?”.
O promotor acusou e a defesa rebateu: “Povo ingrato! Povo Ingrato! / O acusado de fato / Merece trato de herói! / Tudo aquilo que constrói / Que o progresso traz de fato / Veio com esse cidadão / Que chamamos Borba Gato / Viu esse Pyndorama / Um lugar pra prosperar / Nos caminhos que abria / Riquezas a revelar / Pôs suas ordem na bagunça / Que considerou “geral” / E não digam que atuou / Para o bem de Portugal!” Seguem palavras de Dulce, do juiz, do promotor, novamente Dulce e, finalmente, o juiz decreta: “Quem decide aqui é o povo, isso é júri popular!”
Borba Gato já sabia da sentença: culpado! Entre as penas propostas pelo público, “fica condenado a viver como estátua, estagnada, deteriorando com o tempo, sob o cocô dos pássaros”. Teve quem propusesse colocar grades ao seu redor “para mostrar que gente rica que estupra, mata, rouba também pode ficar presa”.
Mais pragmático, Binho sugeriu que “o valor dos pedágios das avenidas que levam nome de jagunço fossem revertidos para as nações indígenas”.
Atingida por poesia, música e teatro, a obra que surgiu em 1960, pelas mãos do escultor Júlio Guerra, permaneceu intacta, sem marcas de pichações, depredações ou qualquer avaria.
Por fim, como não poderia deixar de ser, sambão e festa.
Romão Gomes
Luiz Carvalho
A tranqüila Avenida Tenente Júlio Prado Neves nasce na Nova Cantareira, zona norte de São Paulo. A patente da via já entrega o que está por vir. Entre o canil da polícia e a associação dos oficiais da corporação fica o Presídio Militar Romão Gomes. À primeira vista, não fosse o respeito à hierarquia, expresso nas continências e na posição de sentido dos presos, que só se desfaz após o comando do capitão Walter Luco Júnior, poderia confundir o lugar com uma colônia de férias.
Logo após a portaria, dentro da qual os soldados sintonizam a Kiss FM, há uma praça que recebeu o nome de dignidade humana. Nenhuma porta se abre sem que a anterior esteja fechada. No armário de número 13 deixo meu celular, levo a chave e caminho rumo ao pátio onde os internos, perfilados e uniformizados, aguardam autorização para seguirem os respectivos caminhos. Alguns cumprem regime fechado e voltam para a cela ou seguem para o trabalho no próprio complexo. Outros já ingressaram no semi-aberto e partem para um emprego fora dali.
Não sou o único visitante. Um ônibus repleto de alunos do curso de formação de soldados também estaciona logo após parar meu carro. A visita ao Romão faz parte da grade curricular. Trata-se de uma forma de mostrar o que acontece com quem recebe treinamento para servir à segurança pública e comete desvios em suas funções. Porém, “punição com respeito, independente da pena”, conforme observa o Major Antonio Spinieli, comandante interino do presídio e responsável por liberar minha entrada na casa.
Sob o toque da batida militar as atividades começam, por volta das nove, inclusive para os membros da banda de 12 internos.
Ala VIP
Antes que eu comece a enfileirar perguntas, Spinieli me leva para tomar café da manhã com o comando. A mesa inclui frutas e pães franceses feitos por presos como José (*), 44. Ele cumpre pena de quatro anos por homicídio. Está no Romão Gomes desde 2005, e depois de um curso com Rogério Shimura, chefe de cozinha que costuma freqüentar programas de televisão, aprendeu a arte da confeitaria. Por dia, fabrica 800 pães, também distribuídos aos funcionários do canil, do COE (Comando de Operações Especiais) e aos bombeiros.
Após a parada, passo pelo corredor da “Ala VIP”. À direita ficam as salas do major e do diretor do presídio. À esquerda a do capitão, toda a parte administrativa e o refeitório da cúpula. Nas paredes, frases para elevar a auto-estima, fotografias e o quadro de policiais do mês. Nessa manhã de quinta-feira, restou a Luco, homem esguio, de calvície acentuada, me apresentar as dependências.
De fala calma e articulada, o capitão saca um dos inúmeros cigarros que fuma durante a entrevista. Na estante ao lado da mesa onde mantém um computador com tela de cristal líquido ficam brinquedos como um navio pirata, um mago, uma guilhotina com um dos bonecos decapitados e uma vara de pescar que usa nos finais de semana com os filhos. “No começo é muito difícil trabalhar aqui porque sempre encontramos companheiros com quem estivemos”, fala.
Sete reais o quilo
A laborterapia ou terapia ocupacional, sob o comando do capitão Edson Gonçalves, é o segundo passo do programa de gerenciamento do preso. Caso apresente bom comportamento e já tenha cumprido ao menos quatro meses do período de reclusão, o detento passa para o segundo estágio. Entenda bom comportamento como apego à alguma religião, à família e o civismo. “Se recebe visita tem algo a perder e a religiosidade pode mudar o coração dele”, acredita Gonçalves. A cada dia o culto de uma crença diferente acontece. De protestantes a reikianos, todos possuem um espaço para reuniões. Para os católicos e evangélicos, uma igreja espaçosa, decorada com papéis tingidos por anilina amarela, pendurados na parede. Aos adeptos da umbanda, que realizam o ritual às terças-feiras, um terreno nos fundos, onde o atabaque, o fumo e os cantos são liberados. Porém, se a entidade quiser cachaça vai ter que procurar em outro terreiro.
Na segunda fase do processo o interno deixa a cela e segue para alojamentos. O número de visitas aumenta para quatro, a ala íntima para uma hora e além dos familiares, já pode receber amigos. A principal mudança, porém, é a possibilidade de trabalhar internamente. Cada três dias de labuta abatem um na pena. As opções vão desde a fabricação de casinhas de cachorro, em madeira ou plástico, até produção de serviços voltados à comunidade, como lava-rápido e tapeçaria. Existem ainda aqueles selecionados para lidar com a terra e com animais. Neste último grupo está João (*), 55, 25 anos de PM. Ele cuida do “berçário”. Planta em espécies de bandejas os produtos de uma horta, que fica na parte de trás do Romão. Enquanto enxuga o suor da testa, conta que se aposentou há sete anos, em Araçatuba, cidade a 524 km de São Paulo. A conversa termina quando lhe pergunto o crime que cometeu. “Ih, melhor nem falar”. Ele cumpre pena por estupro.
Neste lugar, homicidas, estupradores, latrocidas convivem sem distinção. A definição das celas ocorre de acordo com o perfil psicológico e não com o crime. Sempre identificados com um crachá, nenhum dos presos pode ser chamado por apelido ou pelo número. Normas da única detenção no mundo que ostenta o ISO 9001, um certificado de gestão da qualidade obtido em 2003. Basicamente, isso significa que da recepção à confecção do alvará de soltura, todo o processo dentro do sistema é descrito e planejado.
Tal qual João, Jerônimo (*), 50, casado, pai de quatro filhas, condenado a nove anos por homicídio passa oito horas num lugar que lembra o ambiente de uma fazenda. Do próprio humor do PM ao rancho onde cozinha feijão num velho fogão, tudo tem um ar caipira. A missão de Jerônimo é cuidar dos porcos e das aves. De quebra, toma conta também de Macalé, um labrador preto “nascido e criado em regime-fechado”, como diz. O cão se assusta com nossa presença, late quando entramos nos chiqueiros e o preso logo comenta, “ele pensa que vocês são da corregedoria”. O pai de Macalé, Pedro Luís, também mora no presídio, mas vive no “semi-aberto”. Você sabia que a gestação de uma porca dura quatro meses? Você sabia que Cachaça, feliz pai de 13 leitões, também pode cuidar da segurança, tão bem ou até melhor que um cão treinado? Pois é, aprendi naquele dia. A suinocultura é parte da renda do lugar. O quilo da lingüiça custa R$ 7, mesmo preço do quilo do lombo e do pernil.
No terceiro estágio do regime fechado o tempo de ala íntima passa para duas horas e o número de visitantes permanece o mesmo. Com exceção das crianças até 14 anos, todos passam por revistas íntimas. Os cabelos precisam ficar soltos e as mulheres devem se abaixar, de pernas abertas, nuas, por duas vezes para mostrar que não carregam nada dentro da vagina. As fraldas dos bebês são trocadas, diante de alguém do complexo penitenciário que acompanha o procedimento. Enlatados, vidros e caixas não entram. Cigarro pode, mas nunca em pacote, para não ser usado como moeda de troca.
Sem mofo
O primeiro passo e, imagino, o mais difícil para o policial militar condenado deve ser entrar na cela e deixar de ser seta para se transformar em alvo. Não há superlotação e nem sujeira nos espaços onde, inicialmente, os internos passam 22 horas. Não há cheiro de mofo, conforme observa o capitão. Mas há medo nos olhos dos novatos. Aqui acaba o clima de clube de campo. Os espaços de seis por seis metros abrigam, em média, 12 pessoas divididas em treliches. As camas levam os nomes dos internos, assim como os armários que não tem lugar para trancas e normalmente servem de suporte para aparelhos de televisão. O banheiro, mais ou menos do tamanho do quarto do meu apartamento, também está limpo. Nessa ala fica ainda uma espécie de solitária, aí sim, um pouco menor, do tamanho da cozinha lá de casa, sem espaço para TV, somente com beliche, privada e pia. Como em presídios “comuns”, no setor há uma pequena quadra, sobre a qual passa o varal onde as roupas ficam penduradas. Dois carcereiros, em turnos de 12 por 36 horas garantem a segurança. A função fica sempre a cargo de cabos, PMs em início de carreira como Luiz Antônio Pereira, natural de Guarantiguetá. Dois anos de polícia, um de carceragem.
O trabalho de Pereira é facilitado pela característica do presídio. Não vale a pena fugir, principalmente porque uma fuga significa a transferência para uma penitenciária comum. Trocariam a tranqüilidade pela tensão de viverem como cordeiros no meio de uma alcatéia. Por isso não existem muros, somente frágeis cercas e câmeras espalhadas por todos os lados.
Foi a necessidade de separar os militares dos presos “civis” que deu origem ao Presídio Militar Romão Gomes, em 1927. Contudo, apenas a partir de 1949 ele passou a funcionar na Serra da Cantareira.
Joana faz de conta
No total, são 236 pessoas. A mais velha tem 73 anos. São 180 em regime fechado e 56 no semi-aberto. Sete são mulheres. Joana (*), 32, viúva, é uma delas. Aos 24 anos realizou um sonho de infância: se tornar policial, igual à irmã e à mãe, policiais civis. Aos 30, a trajetória foi interrompida graças a um crime passional. Já cumpriu dois anos e oito meses na ala feminina. Têm mais uma década pela frente.
Ela está dentro das estatísticas. Homicídio corresponde a 84 dos casos de condenação no Romão, seguido por roubo. Os presos que recebem a sentença de até dois anos podem voltar às atividades. Para os condenados a um período superior resta o caminho da exoneração.
A mulher do interior paulista, atualmente em regime semi-aberto, prefere imaginar que está aquartelada. Assim consegue aplacar a saudade dos três filhos que moram com a mãe, também no interior. Conversa com as crianças por carta e telefone, mas ver mesmo, devido à distância, somente a cada dois meses, nos períodos das saídas temporárias. “O que você vai fazer quando sair daqui?” “Quero conseguir uma bolsa para um curso de auxiliar de enfermagem e voltar ao mercado de trabalho”, planeja. Foi o que sobrou.
Osvaldo (*), 43, tem duas coisas em comum com Joana. Primeiro, realizou o sonho de criança e se tornou militar, da mesma forma que o tio, coronel do exército. Segundo, finge que está no quartel durante a semana e um domingo por mês, quando vê a mulher e os dois filhos, tenta acreditar que está em casa. Tudo para preencher o vazio. A parte mais difícil foi ficar distante da esposa no período da gestação do caçula, depois que ela engravidou, entre um e outro encontro durante as visitas íntimas.
As semelhanças param por aí. Condenado a 26 anos e 8 meses por latrocínio, ao contrário da companheira de profissão, ingressará com pedido de reintegração na Justiça Militar. Se não for possível, quer ganhar a vida como desenhista profissional, função que desempenhava antes de começar a servir o Estado, 13 anos atrás.
Abaré está com gota
No último ato, o diretor do presídio, Tenente Coronel Abaré Vaz Lima, diz que consegue tratar colegas, com os quais conviveu um dia, como qualquer interno. “Quando ele entra aqui se torna um preso comum. Inclusive, temos três homens que trabalharam comigo e com os quais não mantenho conversa social”, decreta.
Eis um homem que sabe separar os lados pessoal e profissional, irrepreensível, com um ar austero, atrás do bigode negro. Ao contrário dos profissionais da área administrativa, como Luco, que vestem camiseta branca e calça de agasalho azul, o tenente está fardado. Por fim, se desculpa. “Não pude ser um bom anfitrião. Esta perna...”, e aponta para o joelho esquerdo. Ele manca. Acha que é gota. “Talvez, culpa dos cigarros, da cafeína...” Cigarro e café fazem mesmo mal à saúde. ■
(*) Para preservar a identidade dos internos, os nomes com asterisco são fictícios.