quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Passarela eleitoral gratuita

A dois dias das eleições municipais, a tensão e a expectativa tomam conta das campanhas. Cabe aos apoiadores intensificar o contato com parentes, vizinhos, amigos e qualquer grupo potencialmente capaz de reservar uma cadeira na Câmara dos Vereadores ou na prefeitura da cidade. Para os coordenadores, o momento é de bolar formas de cravar o nome do candidato na mente do eleitor. Diz o manual do correligionário: “o último gole é o que mata a sede”.

Já que a Lei da Cidade Limpa fez sumir placas, faixas amarradas de poste a poste e os muros pintados, o jeito foi transformar carros em outdoors e utilizar estruturas que cortam os caminhos congestionados da capital paulista para divulgar a imagem e os números dos postulantes a cargos no Executivo.

Sobre a Avenida Alcântara Machado, mais conhecida como Radial Leste, uma das vias mais temidas por quem deseja ultrapassar os 20 quilômetros por hora que o velocímetro do carro costuma marcar durante boa parte do dia no local, fica a passarela Salvador Rodrigues, um banquete para os grupos de apoio dos políticos.

Na manhã de primeiro de outubro, dia do idoso, Josefa Ferreira, 62, segurava o mastro preto de um bandeira com o nome de Gilberto Kassab, na entrada do lado Mooca da passarela que passa sobre os sentidos centro e bairro da Radial e culmina no lado Brás.

Desde quinta-feira, 25 de setembro, Josefa ganha para ocupar viadutos da região e promover o nome do atual prefeito, das 07 às 13 horas. Até então, tinha dado sorte: tempo frio, sol ameno. Não foi o caso dessa quarta-feira de calor intenso. Mas, ela não reclama, considera a atividade tranqüila. Pode revezar com a senhora que a acompanha e descansar sentada no chão. Para não ter problemas com os raios ultravioletas, usa um boné jeans para proteger o rosto arredondado e procura esconder o corpo de 1,52 sob a sombra da construção que serve de abrigo também para um vendedor de churrasco. Assim aguarda a chegada do “fiscal” que a levará de volta para casa.

Vestindo jaleco verde com o nome de Kassab, tênis branco e óculos de aros redondos, os quais esconde para tirar fotos, ela conta que mora no bairro Juscelino, região de Itaquera. Soube da vaga de apoiadora por meio de uma associação de idosos chamada Novo Amanhecer. “Não há nada prometido, mas disseram que se precisarem da gente depois para alguma coisa podem até chamar”. Ela fez ficha, deixou todos os dados.

O primeiro emprego foi em Pernambuco, aos 13 anos, em uma fábrica. O único “fichado”. Aos 14 veio para São Paulo com a madrinha e a mãe de uma amiga. Até completar 20 anos, trabalhou em casas de família. Depois, casou e o marido não deixou mais que ela trabalhasse fora. Há 10 anos, o esposo faleceu, vítima de diabetes. “Se não fossem meus filhos já teria voltado para Recife”, comenta, citando os quatro que teve em território paulistano.

O que mais incomoda Josefa Ferreira são os problemas da saúde pública, o tempo que demora para marcar uma consulta e o custo de vida. “Quando eu cheguei, dava para ganhar dinheiro em São Paulo. Era disso que mais gostava. Agora, nem isso dá mais”.

Será que votará no patrão a quem diz não ter a honra de conhecer pessoalmente? “Sim, estou trabalhando para o homem. Fazer o quê? Não posso trair”.

Logo à frente, Celso Jatene, vereador candidato à reeleição, revela-se um estrategista, verdadeiro Vanderlei Luxemburgo do pleito. As doações ao time Scorpions, da Vila Antonieta, bairro da zona leste, geraram voluntários. Não me refiro aos gandulas, mas aos próprios atletas da equipe.

Caso de Ricardo Pontes, 23, goleiro da equipe e um dos três craques sobre a Salvador Rodrigues. Armazenista desempregado, casado e pai de uma filha, atuou entregando panfletos nas eleições anteriores e agora segura uma faixa de plástico com a imagem, o nome e o número de Jatene na parte central da passarela. De acordo com a Lei da Cidade Limpa, não poderia fixar qualquer objeto de propaganda no local de trânsito de pedestres, porém, honestamente, com um sol de rachar quem é que vai implicar se ele amarrar as hastes de madeira ao corrimão com um arame discreto e colocar a mão por cima? Uma gambiarra inofensiva e imperceptível, já que o material não está pendurado.

Barba por fazer, não é mais garoto e assim mesmo recebeu alguns lembretes dos coordenadores da campanha: não sujar o espaço público e não jogar nada na avenida. “Somos a imagem do cara”, diz, referindo-se ao representante do PTB e ciente da responsabilidade que lhe cabe.

Às vezes senta sobre um caixote, às vezes bate um papo com os colegas de labuta. Sobretudo, é um homem de opinião: não votará em Celso Jatene. Já para prefeito, escolheu o chefe de Josefa. “Minha expectativa é que o Kassab mantenha e acelere o que está fazendo. Se outro entrar, vai ter mudança e aí pára tudo o que já tem. A saúde no nosso bairro melhorou, mas emprego ainda está difícil”, aponta.

Depois de sexta-feira, Pontes deixará a passarela e voltará à fila dos desempregados. Com um boné para se proteger do sol.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Fragmentos da independência

Dois dias antes do desfile de sete de setembro, o cadete da aeronáutica Thiago Almeida resolveu recepcionar os cariocas Renato Osório e Danilo Lima, também membros da força aérea brasileira, no Charme da Paulista. Levou junto o patriarca dos Almeida, senhor Carlos, um policial militar aposentado que brindou com todos no bar da Avenida Paulista.

Apenas um homem não integrava o grupo de segurança nacional, justamente aquele que não pagou por qualquer garrafa ou maço de cigarros, mas bebeu e fumou. Sem injustiça, às vésperas da semana da pátria, devo dizer que retribuiu o favor com música.

Ao observar a aproximação de um trio de velhinhos empunhando bumbo, caixa e trompete, Gibran Santos, 28, entendeu o convite e juntou-se a eles para uma sessão de Aquarela do Brasil. Pegou o sax soprano fabricado com canos de PVC e palhetas de EVA e improvisou.

Ainda falta passar fibra de vidro e resina para deixar o som encorpado: o instrumento vibra um pouco e não é capaz de sustentar as notas mais longas. Com esse último toque, não irá falhar.

O quarteto formado pelos velhinhos e o saxofonista entoa alguma coisa que lembra ao senhor Almeida o hino do Corinthians. E ele canta:

“Corinthians graaannndeeee”.
“Porra, você é palmeirense”, diz o filho.
“Foda-se. Música é música”, revida o pai.

“A boquilha é original e igual a de um sax comum”, explica Santos ao comentar que já vendeu cerca de 10 exemplares do modelo por até R$ 500. Normalmente, o preço é a metade disso.

A voz grave se opõe ao corpo franzino de adolescente e ao visual de skatista: boina preta, calça e camisa largas. Gibran Santos cruza a cidade sobre uma tábua preta com quatro rodas azuladas e uma mochila escura. Leva também uma capa para o instrumento de sopro e para o afinador eletrônico adaptado à uma bateria de celular.

Parte do dinheiro para pagar despesas como o apartamento na Vila Madalena onde mora ao lado da atriz formada em Hotelaria, Carolina Mesquita, sai do patrocínio da marca Skate Até Morrer. Outra fatia vem dos trabalhos free-lancer de barman e, claro, há ainda o pedaço que depositam após canções interpretadas no lado de fora do Museu de Arte de São Paulo (MASP), às terças, e na Praça Benedito Calixto, aos sábados. Por noite, tira algo entre R$ 20 e R$ 50. “No Brasil é osso. Tenho um amigo que mora na Irlanda e também toca na rua. Consegue tirar 600 euros. O máximo que consegui foi R$ 150 depois de oito horas de som em um dia de São Silvestre. Até judeu ajudou”. Foi uma bela jornada.

Santos foi registrado em São Paulo, mas nasceu na cidade de Ponta Grossa, Paraná. Até 15 anos foi criado pela avó, mas resolveu vir para a capital paulista tentar a vida com o pai. A química não funcionou bem e optou por morar na rua. Dormiu diversas vezes na Praça Osvaldo Cruz, onde começa a Paulista. Aprendeu a ser auxiliar de cozinha e a fazer artesanato. Jamais pediu esmolas e desde cedo usou a arte como moeda de troca.

O dono de uma pizzaria e uma gaita lhe salvaram a vida. Fascinado pelo talento de um homem chamado Mutamba, o então adolescente começou a se aproximar do músico da Vila Madalena até que este aceitasse ensinar o domínio do instrumento. Inicialmente, o “professor” recusou. “Bebendo desse jeito, com essa idade, não vai longe. Nem vale a pena começar”, lamentou o mestre. Era a fagulha que faltava para maneirar com o álcool. Quem diria: inconscientemente adaptou-se aos novos tempos de Lei Seca. Só dirige skate e um copo de cerveja já é o suficiente.

As influências musicais vão de John Coltrane a Deep Purple. De Dire Straits a Tom Jobim. Gosta também “daquela mulher, como é mesmo o nome? Regina (pausa)...”

“Elis Regina”, digo.
“Isso, minha memória não é boa para nomes.”

Após completar 18 anos, foi morar em uma pensão com a ajuda do pai. Em 2002, na garupa de uma moto foi atingido por um veículo que passava pelo cruzamento da Consolação com a Dona Antônio da Queiroz. Aos 22 anos, perna quebrada, resolveu buscar algo para passar o tempo e encontrar uma forma original de unir diversão e dinheiro. Lembrou do sax de bambu que comprou numa viagem ao Rio de Janeiro e começou a desenhar um aparelho com as ferramentas que possuía em casa. Surgiu o primeiro saxofone artesanal, cujo projeto já foi patenteado. A idéia é buscar patrocinadores para produzir em larga escala e oferecer a escolas.

Planeja ainda comprar uma casa junto com a namorada. Um lugar amplo que sirva de ateliê e oficina para desenvolver outros instrumentos como um trombone.

Desapegado a tudo, define-se como uma pessoa carente, que precisa de colo, mas “não sabe chegar”. A relação com o pai continua distante, tal qual o contato com a mãe, uma mato-grossense a quem só foi apresentado aos 22 anos.

A cultura hippie lhe ensinou sobre o amor: ama os irmãos, inclusive aqueles que não conhece da parte materna. Ama a filha que mora em Itapevi com a ex-namorada. Ama tocar, conversar com os amigos, ler gibis e fumar um porro toda noite antes de dormir para relaxar. “Vivi, curti pra caralho e não deixo de comer ou beber o que tenho vontade.”

Ama, sobretudo, a liberdade. “É o que mais gosto em São Paulo.”

terça-feira, 22 de julho de 2008

Um casal para um Fusca *

Segundo a Associação Comercial de São Paulo, o bairro do Brás, de 190 anos de existência, possui 55 ruas, seis mil estabelecimentos e quatro mil fábricas, além do Fusca branco de Rosana Rodrigues, 44 anos.

Na altura do número 1000 da Avenida Rangel Pestana, bem pertinho da Estação Brás de Metrô, ela passa boa parte das tardes deitada, “ouvindo black music”, da rádio Metropolitana, e olhando o movimento das pessoas.

Mãe de três filhas e avó de duas netas, Rosana nasceu em Assai, cidade ao norte do Paraná, a quase 400 quilômetros da capital do Estado. Porém, nem teve tempo para experimentar a culinária com influência japonesa do município, já que se mudou no primeiro ano de vida para a cidade paulista de Guarulhos, onde foi registrada, e depois para Jacareí.

Aos 17, visitou São Paulo pela primeira vez e, entre idas e vindas, está na capital desde 2004, onde mora em um Fusca sem rodas e sem placa ao lado do marido, Emerson Santos, a quem conheceu numa fila para pegar comida, no Pátio do Colégio, na região central de São Paulo.

Há quatro meses estão juntos e dormem todas as noites no carro, outrora abandonado, atrás de um caminhão com placa BKO 2975.

O casal vai para a cama cedo, às nove, 10 horas da noite, e acorda às sete da manhã. Santos costuma tirar entre R$ 20 e R$ 30, diariamente, com a venda do papelão que pega na rua. Algumas vezes Rosana o acompanha no trabalho.

Uma das três filhas, a de 23 anos, já casou-se e mora em Jacareí, assim como as outras duas meninas (de 19 e 12 anos), que vivem com a avó delas. Apenas a de 12 sabe da vida da mãe e, mesmo assim, quando Rosana contou, achou que era “brincadeirinha”. A família de Emerson Santos, residente no Arujá, também não sabe que ele vive e sobrevive das ruas.

A “casa” praticamente resume-se a uma cama feita com uma porta sobre o assoalho, disposta no lugar onde deveriam estar os bancos da frente e os de trás do Fusca. Em cima da porta, além do colchão, dois travesseiros e um cobertor estão, cuidadosamente, organizados. Na parte onde ficariam os pés do carona, estão produtos de limpeza e cremes faciais que Rosana comprou “de umas pessoas que vendem essas coisas bem baratinho.” Ao lado dos frascos, repousa um par de sandálias brancas número 35, e o porta-malas faz as vezes de armário para guardar os copos, talheres e outros objetivos doados que eles não tem onde colocar.Sobre o painel de um dos veículos mais amados do Brasil, há um relógio grande, vermelho, desses que as pessoas costumam pendurar na parede da cozinha.Rosana, cabelos loiros, sorriso tímido, reclama do ambiente “super apertado” e, principalmente, da falta de uma televisão. O capacho, ao lado da vassoura que fica encostada na parte traseira do automóvel, é um pedaço de papelão, onde o casal limpa os pés antes de deitar para dormir, protegidos por uma lona vermelha sobre outra azul, amarradas às partes traseiras e dianteiras, que aquecem e garantem intimidade.

“Ninguém nos incomoda e nunca pegaram nada nosso. É só não deixar as coisas para fora porque aí outros catadores podem levar.” É a lei da concorrência na terra da concorrência; São Paulo para todas as camadas sociais.

Rosana Rodrigues e Emerson dos Santos ainda conseguem espaço para duas caixas vazias de detergente, com roupas que lavam em albergues, locais onde também alimentam-se, mas onde não pretendem viver. “Não gostamos porque não podemos dormir juntos e também tem muita disciplina. Tudo tem horário e é muito difícil arrumar vaga. Você consegue um lugar para domir à meia-noite e precisa acordar às cinco da manhã”, comenta.

Vestida com uma regata preta, chinelos laranja e saia longa, colorida, ela joga uma camisa sobre as pernas para limitar minha visão sobre seu corpo e mantém no ouvido os pares de fone conectados ao rádio preto, agora, desligado. Assim permanece, mesmo quando pergunto sobre seus sonhos. “Não tenho muitos sonhos. Apenas não quero ficar morando num carro velho a vida toda. Mês que vem quero alugar um quartinho.”

*Reportagem orginalmente publicada neste blog no dia 13 de junho de 2008